Noite das Facas Longas

Capítulo XI: A Presença

“Você sabe que não deve nada a Otto, Heinrich”. O silêncio quebrado pela frase rugia como um farfalhar de inverno – um piscar de olhos azuis e Heinrich Caça-Ratos, guardião do caern de Grünewald, desperta de sua letargia e olha para quem a proferiu: Anton, o último dos Nordeskald, cujo rosto marcado por cicatrizes surge das árvores para ser dourado pelo fogo da clareira.

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A meio quilômetro dali, uma jovem tropeça pelas raízes das árvores do caern. Seu rosto contorcido por uma gargalhada seca e inaudível parece assustar os arbustos à sua frente, sua marcha trôpega denota a pressa de quem cumpre sua última missão. De longe, Otto Panzerfaust, mestre por costume e direito do caern de Grünewald, observa espantado.

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“Tampouco devo a você, Nordeskald. É um absurdo que sua presença seja tolerada neste caern, mas a de Otto não. Se eu não tivesse que cumprir as determinações de Frau Anna…” Nordeskald interrompeu, tempestuoso. “Se você cumpre as determinações de Frau Anna, porque continua deixando Otto entrar no caern?” Um bando de pássaros voou barulhento na árvore ao lado, amedrontados pela Fúria crescente na clareira. Heinrich imediatamente transformou-se em Glabro. “Você sabe, Anton, como eu ganhei esse apelido, Caça-Ratos?”

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A jovem alcançou a clareira indicada por seu mestre. Havia entrado no parque como uma jovem na plenitude de sua vitalidade; agora que se aproximava do final de sua missão, parecia uma velha gasta pelo tempo e sofrimento. Os esquilos que se alimentavam do resto de comida deixada do jantar (gentilmente oferecido, como em todas as noites, pelos membros do caern) correram desesperados ao avistar aquela figura grotesca. Puxou as mãos do manto grosso que usava, olhou para as mãos ora mortificadas e entoou um canto baixo, enquanto se dirigia lentamente para o lugar onde dormia Béla Bártok.

Bártok acordou no quarto de sua antiga casa na Hungria. As fotos de casamento e das crianças, o cobertor usado para dormir: tudo estava ali. Como nos tempos de outrora, acordou e foi direto ao piano. A partitura no instrumento mostrava um concerto de cordas que o maestro jamais ouvira, embora ao lê-la as notas soassem como se tivessem sempre existido; no canto, o ano de 1935.

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Desceu a escada. O sol da manhã invadia a sala, que servia de quarto para um enorme cão negro; Béla instintivamente sentiu ser Nádia. A Gangrel se dirigiu a um canto da sala e transformou-se novamente em humana, confusa por estar naquela situação. “O que você está fazendo no meu sonho?” Béla perguntou. Da cozinha, uma figura sóbria e encapada surge com uma bandeja de café na mão: é Julius Évola, o vampiro ancião que havia se interessado por Béla anteriormente.

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_“Eu sei muito bem, Heinrich. Você matou aquela matilha inteira de Roedores russos infestados pela Wyrm em 1915. E ainda assim você me julga por ter matado aqueles Crias infestados após a Grande Guerra.”

“Eu cumpri a determinação dos anciões da Floresta Negra; você, ao contrário, agiu à revelia e jamais levou a julgamento seus caçados.”

“E como diabos os velhos lobos da Floresta Negra iriam aceitar que seus próprios primos fossem caçados por um Nordeskald como eu? Isto não era possível, Heinrich.”

Heinrich, ainda em glabro, mesmo assim parecia mais calmo. Se não estivesse focado naquele raro diálogo com a lenda negra Anton Nordeskald, teria feito seu papel de Guardião e sentido a invasão do caern por uma bruxa infestada pela Wyrm…_

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Béla permanecia confuso, e Nádia mais ainda. Seria um sonho do maestro ou da Gangrel, ou algo ainda mais terrível? Julius ofereceu o café para ambos; sangue verteu do bule na xícara de Nádia. “Gosto de fazer estas visitas noturnas a pessoas que despertam meu interesse. Agora entendo que você não é um mero maestro mortal, Béla. Também não esperava vê-la por aqui, minha jovem” disse o vampiro, dirigindo-se a Nádia. O maestro estava incomodado: com a visita não anunciada, com a memória vívida de sua antiga casa, com a sugestão de que Julius Évola poderia conhecer seus segredos dentro de sua própria mente. “Para mim é bastante fácil realizar estas visitas, basta que a pessoa ouça a minha voz. Eu me entedio rapidamente porém, e este foi um dos motivos de eu ter passado os últimos séculos em repouso. Mas as pessoas de hoje, especialmente aqui na Alemanha, elas são tão fascinantes! E os avanços tecnológicos! Imagine, Béla, quantas mentes eu poderia visitar com o advento do rádio?”

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“Eu sei, todos sabemos, Anton. Seu antepassado desgraçou a tribo dos Crias quando invadiu a Irlanda, seu sobrenome para sempre atormentará sua própria honra. Mas você não é Siegfried mas Anton Nordeskald, orgulho dos variagues, e poderia ter feito as escolhas corretas para resgatar o seu nome perante os Crias.”

“E você é apenas um moleque insolente, Caça-Ratos! Você nunca esteve no Heimhalla a sentir o Grande Fenris entrar no corpo de todos os Crias! Você não sabe sequer a linguagem secreta da aurora boreal, vocês alemães e suas indústrias e suas cidades e seu maldito orgulho! Vocês se renderam ao espírito romano de território e conquista, e caberá aos Lobos do Norte, como sempre, ensinar-lhes de novo a caminhar sob as estrelas!” Nordeskald encarou Heinrich nos olhos. Os dois permaneceram ali, desafiando-se em silenciosa meditação, por horas.

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Uma multidão rapidamente tomou as ruas na frente da casa de Béla. Julius comentou tranquilo, entre um gole e outro de café: “Conheci um amigo seu agora a pouco, um senhor bastante agradável. Chamava-se Edgar Allan Poe. Ele me disse que seu destino lhe esperava do lado de fora. Não sei exatamente o que está acontecendo, mas parece importante.”

Béla e Nádia partiram para seguir a multidão. Um sol brilhante no céu carregava o signo do Olho de Massada, que atormentava o maestro com uma profunda sensação de angústia e catástrofe iminente. Nas ruas, a multidão de cidadãos de todo o tipo se dirigia caminhando a passos rápidos na mesma direção; os dois os seguiram.

Em uma praça grande no centro de Berlim, uma operação militar havia sido montada. Soldados com metralhadoras sobre os caminhões vigiavam as filas, que eram ordenadas por funcionários da SS e médicos de jaleco branco. Um deles era Edgar Allan Poe, o avatar iluminado de Béla Bártok. Ele estava extasiado: “Que maravilhoso encontrá-lo Béla! O nosso dia chegou, o Olho está aberto! A Ascensão está muito próxima! Lutamos tanto por isso, e agora finalmente todos os seres humanos poderão tornar-se magos novamente. O Olho está selecionando os que não tem mais possibilidade de iluminação nesta fila; naquela outra estão os senhores do amanhã, os futuros magos da humanidade! Você certamente está incluído Béla…” O maestro interrompe. A operação na praça tinha todos os indícios de uma farsa grotesca, e o rosto hipnotizado das pessoas selecionadas para morrer sugeria um feitiço terrível em execução. Instado a participar daquele espetáculo macabro, Béla Bártok se vira contra a multidão e parte do lugar, sendo observado por guardas hostis. Quando a hostilidade se transforma em uma perseguição com tiros, ele se vê obrigado a correr contra a massa, esbarrando e derrubando dezenas de pessoas. Nádia fica pra trás, sobrepujada pela multidão, e Béla volta para pegá-la. Mas a Gangrel se transforma em morcego para fugir do caos, e Béla se vê cercado por guardas armados. O ruído dos tiros é como uma avalanche de gritos, e o peito do maestro é explodido por balas de fuzil; Béla sente novamente, e com profunda realidade, a mordida de chumbo da morte. A experiência é excruciante, mas iluminadora: os fios de Entropia que o prendem nesta esfera são para o maestro uma maldição e um refúgio, sua percepção cada vez mais iluminada dos eventos em Berlim lhe traz delírio e fortuna. De longe, seu avatar se inflama como uma fogueira azul e regozija em ver o mago Vazio ser alvejado pelos guardas. É preciso morrer para iluminar-se.

Otto sabia que aquilo não ia bem. Sentia uma indelével presença da Wyrm naquela mulher, e embora não tivesse nenhuma simpatia por aquele mago maldito que fuzilou seu camarada no bosque de Muggelheim, era SEU caern a ser violado por uma criatura das trevas. No entanto, se atacasse, seria flagrado invadindo Grünewald e rompendo o pacto de não agressão que mantivera até agora; também estaria colocando em problemas seu amigo Heinrich, o guardião. Felizmente, o grito do maestro acordou Liam, e Otto pode mais uma vez observar o Bastet em ação.

Liam levanta em um salto e, ainda em sua forma felina, pula sobre o pescoço da bruxa, prendendo-a com suas fortes garras. A mulher reage com suas próprias unhas afiadas, mas não consegue atingir Liam. O Bastet prende a garganta da bruxa como um leopardo caçando, enquanto Béla acorda de seu delírio e tenta observar a mente da criatura. Ele visualiza um círculo metálico recheado de nomes e circundado por um grupo de mulheres que entoa um canto sinistro. Béla procura memorizar o canto e tenta se comunicar com a bruxa, mas assim que Liam solta sua garganta, ela começa a emitir um grito alto e agudo, inumano. Anton e Heinrich ouvem o silvo da Wyrm e interrompem seu desafio para verificar a fonte.

O sangue negro da bruxa polui o solo do caern. O testemunho das árvores e dos espíritos do bosque observa que, mais uma vez, o Bastet Liam McLeod enfrentou uma criatura da Wyrm em Grünewald. Enquanto os garou, seus guardiões por força e direito, brigam entre si em inúteis conflitos tribais, um estrangeiro teve que intervir novamente. Do ar frio berlinense se materializa o Totem, o mais nobre dos espíritos habitantes do caern, que há anos não aparecia por lá. Trata-se do Leão Cinzento, o espírito antiquíssimo dos extintos leões europeus, cuja presença rara na Terra acusa uma majestade ameaçada, um Rei solitário e entristecido. Sua voz de semideus entristece as folhas do caern, que caem das copas a cada frase dita pelo Totem:

“Você não é mais um filhote, Liam. Sua atuação aqui tem sido observada, Gaia está contente com seu papel. Esta criatura que trazia consigo a corrupção e o delírio representa as forças malignas que tem assediado Grünewald. Meus filhos estão em guerra e enquanto estiver assim, eu não voltarei ao caern. Mas acompanharei você se você permitir; sinto que sua presença responde a uma necessidade ainda maior e mais misteriosa de Gaia. Otto é um garou digno e é meu filho, mas não intervirei na política mesquinha dos garous. É irônico, você, um Bastet de uma tribo extinta, você é quem trará o equilíbrio de volta para os garous, Liam. No entanto, devo avisá-lo que esta enorme responsabilidade lhe trará muita glória e honra, mas também será seu fim. Quando Grünewald estiver novamente reunida você estará morto, Liam. É preciso que você encare este destino que Gaia lhe reservou.”

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Enobrecido e assustado com o encontro, Liam presta seu tributo à figura legendária. Nunca tinha visto um espírito tão magnífico e nobre; espantado com a presença e com o reconhecimento do Leão, decide adotá-lo como seu totem pessoal.

Anton e Heinrich chegam para encontrar a bruxa já morta. Sua última manobra é conhecida de agentes da Wyrm: vomitar besouros venenosos que se espalham pelo lugar e atormentam os atacantes. Heinrich está envergonhado com a violação do caern; Anton sugere que o corpo da bruxa deve ser enterrado do lado de fora e que Frau Anna não fique sabendo do ocorrido. A esta altura, Otto está longe, e ignora que foi visto por Liam durante o ataque. Nádia chega voando: durante o delírio, estava hipnotizada voando como morcego por Berlim.

Na manhã seguinte, o Professor Stultz chega ao local onde está o grupo. Béla, ainda atormentado pelo delírio da noite passada, comenta o ocorrido com o velho mago hermético. O maestro está raivoso: seu grupo tem sido carrasco e vítima dos nazistas de Berlim, manipulado pela Resistência de Stultz, achincalhado pela arrogância do mago hermético e sua postura militar. Tendo horror a disciplina bélica e a hierarquia, Béla deixa claro que não será um joguete nas mãos da Resistência. Stultz está surpreendentemente calmo: “E o que você sugere, maestro?”

A Resistência recapitula sua posição no conflito. O Olho de Massada, se não abriu, está prestes a ser aberto. O Golem é a peça chave do feitiço, e o último componente que ainda não está na mão dos nazistas. Stultz não hesita mais em buscar o Golem: sabe que, de posse da localização da Trilha de Thule, será capaz de encontrar não só o Golem, mas o Pólo Central, base secreta da Sociedade de Thule onde, em uma semana, ocorrerá o encontro da organização que deve selar a aliança entre a cabala nazista e o Príncipe vampírico da cidade.

O grupo decide voltar ao Consulado da Bulgária para checar documentos importantes que foram deixados lá durante a fuga. O local se encontra da mesma maneira como foi deixado, e o grupo retoma o Espelho de Belisarius e um número de livros mágikos. Na caixa de correio, uma carta chegou para Béla: trata-se da resposta de Maxwell Ldescu para a carta que havia sido enviada pelo maestro há alguns dias. Maxwell está em Berlim e gostaria de encontrá-lo.

A noite chega e o grupo vai para um velho hotel no centro da cidade onde está Ldescu. Apesar da idade centenária, aparenta ser um jovem e belo playboy austríaco, cabelo e roupas impecáveis. Ele está empolgado em encontrar o grupo, mas entristecido com a morte de seu grande amigo, o rabino Simeon Bergman. Maxwell dá detalhes sobre o Olho de Massada: para que seja realizado, o Golem deve ser destruído, e não terminado. Na realidade, é provável que Simeon o tenha terminado, mas nunca o tenha ativado. Diz também que a criatura é guardada por um Zelote, um mago hermético treinado em isolamento desde o nascimento para defender com sua vida o Golem. O Zelote é incapaz de negociar ou mesmo debater: criado para ser um guerreiro fanático, seu único objetivo é destruir quem descobre o Golem.

Na saída, Maxwell oferece uma ajuda inesperada aos jogadores: a Trilha de Vril, cuja junção com a Trilha de Thule indicará o local do Golem. Tratava-se de um segredo hermético que Maxwell oferece em troca de uma pequena condição: quer participar da caçada ao Golem e resolver este mistério em nome de seu falecido amigo Simeon. De volta à base da Resistência, Stultz está extremamente desconfiado com Maxwell. Diz que o antigo mago desapareceu dos registros da Ordem há quase um século, o que é bastante estranho. Béla diz que não se encontrou com Maxwell, mas o Espelho de Belisarius o acusa. Stultz sustenta sua desconfiança mas decide não intervir após ter em mãos a Trilha de Vril.

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O próximo passo da Resistência é encontrar a Trilha de Thule. Um dos seus pólos está na casa de Julius; o outro, em algum lugar do Volkspark, a base da milícia da SA conhecida como “Força-Bruta”. É para lá que os jogadores se dirigem.

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