Trecho do diário de Hans Schmidt

Recuperado por Liam na casa de Karl Haben (capítulo IV)

14 de fevereiro, 1931 (Ankara, Turquia): As conferências desta semana me fizeram ter certeza que os chamados thulianos não fazem sentido algum na antropologia tradicional. Digo isso como um epitáfio para a ciência tradicional; é preciso rejeitá-la por completo, dadas as limitações óbvias. Senão pela impossibilidade de separar o histórico do místico na narrativa thuliana, então pela incapacidade de admitir o grau de tecnologia que tal civilização demonstra claramente possuir, uma característica ontológica da ubiqüidade dos thulianos como antagonistas clássicos.

O referencial grego pré-helênico menciona um lugar, Ultima Thule, como o ponto final do Axis Mundi, o fim divergente e entrópico de toda a existência, onde haveria, segundo Pirro de Nicósia, “um povo que regozijava na destruição e viveria somente para o caos”. Oras, Neumann encontra a mesma narrativa é tradição oral Sami, cuja raíz fino-úngrica não possui qualquer conexão com o ramo grego, e lá se encontra a mesma expressão, Ultima Thule, para um lugar e um povo responsável por “esticar o inverno e encurtar o verão” em anos sombrios.

O manuscrito que adquiri em Ankara é ainda mais notável. Trata-se de um poema épico chinês do período Qin (a mesma época em que Thule voltou a aparecer nos palimpsestos herméticos!) onde a narrativa thuliana aparece nas três primeiras estrofes:

Han-yang, o pescador,
varou as Três Montanhas do Norte
e os Três Mares do Sul
em busca de sua filha Xun.
No ponto da terra onde o pico Moji
encontra o lago de Thule,
enfrentou Nim-Rud, o Primeiro Rei,
que havia se tornado Legião.
E em Thule ensinava-se a ira,
O bravo Han-Yang quis destruir tudo aquilo
E para matar Nem-Rud, fez tornar-se um dragão
E após matá-lo, sua filha Xun, não mais o reconhecia.

O poema acompanha a vida de Xun após fugir de seu pai-dragão. Na última estrofe, Thule volta a aparecer:

A tumba de Xun, infinita muralha
Que guarda os homens de Leste a Oeste
Glória aos seus filhos, morte à Desordem
No lago de Thule o dragão e seu povo

Conta-se que Han-yang, para salvar sua filha, tornou-se Fúria completa e adquiriu os modos de Thule. O mais impressionante no poema é a conexão com Nem-Rud (Nimrod) citado na Bíblia e no Corão como o primeiro rei dos homens, descrito como um “gigante cruel”. Para proteger a tribo de Abraão de Nimrud, Deus envia um mosquito que entra no ouvido do rei-gigante e o enlouquece. Nos manuscritos apócrifos de João, Nimrod vaga pela terra como Caim, mas acaba encontrando um lugar (THULE!) onde “sua loucura e crueldade são tidas por virtudes”.

Como explicar essas conexões a um antropólogo tradicional? Neumann sabia disso e escondeu suas anotações cuidadosamente, talvez com a ajuda de sua misteriosa organização hermética. Wissenheim chegou a me pedir para que eu parasse de me pronunciar a respeito em fóruns públicos, dando a perceber que haveriam interesses secretos na exposição de Thule. O rabino de Ankara me expulsou aos pontapés da sinagoga após eu mencionar Thule, mas antes havia me confessado uma descoberta das mais curiosas. Disse que no misticismo sufi a idéia de um lugar puramente entrópico era similar à noção do Monte Kaf, o local onde todas as estradas místicas se cruzam. Nas anotações do célebre rabino de Praga (de quem foi discípulo), o Monte (Thule) se localizava embaixo da terra, de onde infinitos túneis cortados perfeitamente como corredores ligavam todos os lugares santos do planeta, e onde qualquer um que se manifestasse em um ponto poderia imediatamente se manifestar em outro, e de onde se poderia influenciar a Terra de tal maneira que quem encontrasse Thule senão pela meditação mais elevada, fatalmente sucumbiria à cobiça maligna da dominação. Seria esse o sentido do Olho de Massada, a conexão entre Thule e o misticismo judaico? Se o Olho for verdadeiro, como diz Neumann, então a presença de Thule seria tão urgente, e tão perigosa, que uma Sociedade humana destinada ao estudo de Thule deve ser encorajada imediatamente.

Trecho do diário de Hans Schmidt

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